A vida da gente
"Tempo, tempo, tempo, tempo". Dizia o refrão da trilha sonora da primeira novela das seis que se soube ter feito sucesso. Acabou na Rede Globo há coisa de um mês, se não me engano. E porque fez tanto sucesso? Sempre tinha alguma situação naquele folhetim com que a gente se identificasse. Nós no outro... mas voltemos ao tempo. O que, diabos!, é o tempo? Como medir o tempo?
Tempo, pra mim, se mede com emoção. É tanto quando aquele momento chato não passa quanto quando aquela situação que você sonhava se concretiza e passa tão, tão rápido...
Relógios não medem o tempo. Eles medem coisa outra, que nem sei que nome dar. É preciso demais para medir a vida.
Mas porque falar de tempo? Coisa mais batida! Mas dia desses descobri um projeto bacanérrimo, de um moço querido que conheço do twitter, o Nick Ellis, lançado em janeiro. Chama-se Projeto 366. Ele se propôs a tocar uma música por dia, durante o ano, pra registrar essa passagem do tempo de um jeito muito, mas muito bacana mesmo. É uma variação bastante interessante sobre o tema-tempo. O 366 no lugar do padrão 365 deve-se ao fato desse ano ser bissexto. Os esotéricos que expliquem porque o moço escolheu justo ano bissexto pra cantarolar. Eu, que tô adorando o repertório que ele escolheu, tô só visitando o site e achando ótimo. Tem muita coisa boa lá e vale conferir no Tumblr do moço (http://366musicas.tumblr.com) para tirar suas próprias conclusões.
E, atenção: o mais curioso disso tudo é como o tempo nos pega pelo pé quando nos propomos fazer essa viagem junto com ele. Músicas marcam a vida da gente, né? E como marcam... eu, nessas canções, viajei do meu primeiro namorado até o Rock in Rio de 2011, passando por férias de verão em Guarapari na minha infância - entre outras coisas mais, que não conto.
Foi uma viagem boa. Sem a poeira e o mofo que tantas vezes acompanham aquela caixa no fundo do armário. E, a melhor parte: com trilha sonora. Se quiser viajar na sua vida e no tempo de um jeito diferente, não perca um minuto e corra lá. E, claro, depois me conte por onde foi que você andou.
Ah, e uma outra curiosidade, qual música não poderia faltar na trilha sonora da sua vida, hum?
sábado, 17 de março de 2012
A VIDA DA GENTE >> Maria Rachel Oliveira
sexta-feira, 16 de março de 2012
PIOR CEGO É O QUE NÃO QUER VER >> Zoraya Cesar
quinta-feira, 15 de março de 2012
TOLERÂNCIA 4,5 >> Fernanda Pinho
quarta-feira, 14 de março de 2012
DÉGRADÉ >> Carla Dias >>
terça-feira, 13 de março de 2012
S.C.M >> Clara Braga
Existe um fenômeno, um tanto inexplicado, na minha opinião, que algumas pessoas acreditam e outras já não levam tanta fé nele. Esse fenômeno que insiste em nos perseguir é a tal da coincidência.
Eu entendo coincidência como um fato, que tem o seu leve toque de mistério, que acontece mas que a gente não sabe explicar bem como e nem por quê. A partir dessa definição eu posso dizer que eu até acredito que a coincidência exista, mas como não acredito muito que uma coisa possa acontecer por acaso, assim sem motivo nenhum, simplesmente acontecer, eu acabo não levando muita fé nela. Acho que tudo que acontece com a gente tem um porquê, mesmo que esse porquê não seja aparente.
Por exemplo, se estamos pensando em uma música e ela toca no rádio, como com certeza já aconteceu com a maioria das pessoas, eu acho que tem um porquê, não que seja apenas coincidência. Assim como também acho que tem um porquê do nosso telefone tocar e ser exatamente a pessoa em quem a gente vem pensando nos últimos tempos.
Mas mesmo acreditando nessas definições e colocações sobre a coincidência e os porquês que eu falei, existe um tipo de coincidência que vem acontecendo comigo nos últimos tempos que eu ainda não consegui encontrar onde pode estar o porquê. Só sei que é um tipo muito chato que acabou por desenvolver em mim algo que eu gosto de chamar de S.C.M, mais conhecida como Síndrome da Culpa pela Morte.
O que é a síndrome? Vou explicar: Quando a Amy Winehouse, cantora que eu adorava, veio fazer show aqui no Brasil, a minha grande dúvida em relação a ir ou não ao show dela era a seguinte: eu podia sair de Brasília, pagar passagem, pagar o ingresso do show, pagar hospedagem em algum lugar, gastar a maior grana para chegar lá e ela estar tão bêbada que não ia conseguir nem fazer o show e eu ia acabar me decepcionando. Ou então eu poderia não ir e correr o grande risco de nunca mais ter a oportunidade de ir a um show dela, já que do jeito que ela estava bebendo e se drogando ela não ia demorar muito para morrer.
Maldita hora em que eu fui falar isso e decidi não ir ao show. Não deu outra, logo depois apareceu ela morta. Nossa, mas que boca a minha, hein! Será que eu deveria me sentir um pouco culpada? Será que mandei energias negativas para ela pensando assim? A resposta eu não sei, mas sei que nesse momento minha síndrome, por mais absurda que possa parecer, começou a se desenvolver.
Mas tudo bem, agora você deve estar pensando algo como: "Ah Clara, nem vem, todo mundo sabia que a Amy ia morrer, não foi uma coincidência tão grande assim você ter falado isso!" Acontece que não parou por ai. Vou dar outro exemplo para você ver como a minha paranoia de achar que eu estou matando os artistas tem fundamento.
Outro dia, contando para um amigo sobre os show que tinha na Austrália na época em que morei lá, falei que fiquei triste porque na semana em que eu voltei para o Brasil, a Whitney Houston ia fazer o primeiro show dela depois de ter ficado parada tanto tempo lá em Sydney, perto de onde eu estava morando, e eu tinha muita vontade de ouvir ela cantar ao vivo, e as chances dela vir para o Brasil eram pequenas, enquanto as chances dela acabar se envolvendo com drogas de novo já não eram tão pequenas assim.
Terminei de falar isso, virei para cumprimentar uma pessoa, e nisso meu amigo abriu o facebook dele pelo celular, foi aí que ele soltou a bomba: "Clara, eu estou com muito medo de você! Acabaram de achar o corpo da Whitney Houston dentro de um quarto de hotel! Ela está morta, Clara! Por favor, faz um favor para mim, nunca diga que você está com saudade de mim ou que está com muita vontade de me ver, porque pelo visto, quando você está com muita vontade de ver alguém essa pessoa morre!"
Bom, não descobri ainda se esse fenômeno da morte acontece só com artistas que eu quero ver ao vivo ou se acontece também com pessoas próximas. Preferi não fazer o teste. Só sei que nunca mais falei que queria ver show de ninguém, só do Foo Fighters, da Joss Stone, do Bob Dylan, do The Coors, da Alicia Keys, do Bruno Mars, do Paramore, da Roberta Sá, da Maria Gadú, do Chico Buarque, do Marcelo Camelo, do Biquini Cavadão, do John Mayer e mais vários outros.
Mas não se preocupem, se algum desses aparecer morto por agora, aí eu começo a falar que quero ver show do Justin Bieber, do Michel Teló, dos Back Street Boys (se é que eles ainda existem), do Calypso, etc.
segunda-feira, 12 de março de 2012
AMOR E NEGÓCIOS >> Albir José Inácio da Silva
Tito daria um ótimo empresário não fosse o coração. Não que tivesse um coração doente, é que bom coração também atrapalha os negócios.
Na infância já lhe doía no couro a generosidade. Parte das balas e doces que vendia acabava por matar a fome sua e dos amigos. As contas não fechavam e no final do dia recebia nas costas a paga de sua bondade sob a forma de varas e cintos na mão da tia.
Mas dos amigos que alimentava também recebia ingratidão, furtos e pontapés. Não se emendava, e no dia seguinte distribuía de novo os doces, sorrisos e abraços, como se a vida dura não tivesse o condão de fazer egoístas. Claro que assim não lhe prosperavam os negócios nem melhorava a vida.
Com o fim da adolescência sonhou negócios maiores. Por essa época herdou Natacha de um gigolô amigo que morreu assassinado. Fez planos para a mulatinha mas seu coração de novo interferiu. Apaixonou-se por ela, que por isso não lhe rendeu um tostão, rendeu despesas, embora não tivesse qualquer ambição — bastava-lhe o amor de Tito.
Com braços fortes e bom coração, Tito não fugia do trabalho, mas faltava-lhe malícia pra lidar com puxa-sacos, delatores e demais espertos no submundo da sobrevivência.
Assim mesmo, por influência de amigos, ingressou no comércio das drogas não autorizadas. O pessoal do movimento gostava porque ele não cheirava nem fumava. Isso até descobrirem que Tito desencorajava alguns clientes por serem pais de família, porque estavam doentes ou porque aquele era o dinheiro da comida. Quase foi pra vala e acabou expulso do morro, proscrito mas vivo.
Tentou ainda o negócio dos milagres. Ali não faria mal a ninguém. Dava conselhos, distribuía toalhinhas, rosas e outras bênçãos, com sorriso e paciência. Seus superiores só não gostaram quando ele devolveu a oferta de uma velhinha, dizendo-lhe que comprasse os remédios, fizesse dieta e orasse em casa mesmo. Dali também conseguiu fugir após dolorosas sessões de exorcismo.
Tito abandonou de vez as atividades empresariais. Faltava-lhe ambição. Não precisava mesmo de dinheiro e Natacha só queria o seu amor. Ficou morando definitivamente na rua. Integrou-se na comunidade das praças e calçadas, ajudava, carregava as tralhas mais pesadas. Não lhe faltava coragem nem braços fortes. Defendeu violentados e recebeu ameaças que não eram para ele, eram ódio contra a sua gente empoeirada.
E na madrugada do dia em que mais uma vez tomou as dores de um companheiro sem braço, não lhe perdoaram a ousadia. Amanheceu queimado, abraçando ainda o que tinha sido a sua Natacha. Natacha para quem bastava o amor.
domingo, 11 de março de 2012
MEU PAI, NOSSO PAI
>> Eduardo Loureiro Jr.
Uma das principais qualidades de meu pai é sua tranquilidade em emergências. Embora seja um sujeito teatral, daqueles que faz drama por coisas banais, quando uma situação difícil emerge, meu pai exerce como poucos sua capacidade de empatia e resolução. Pode ser um simples pneu furado, ou então uma batida de carro, uma doença venérea ou a perda da chave de casa. Na minha infância e na minha adolescência, presenciei, por algumas vezes, meu pai tomar conhecimento da situação, fazer uma ou duas perguntas para se inteirar melhor do assunto e já partir para uma ação tão direta que o problema, ou pelo menos o desamparo diante do problema, desaparecia em minutos. E uma coisa que me impressionava muito era sua economia de palavras. Durante a resolução dos problemas, reinava um silêncio tranquilo, ausente de qualquer culpabilização. Ficávamos os dois fazendo o que deveria ser feito, sob a orientação dele.
Lembrando isso agora, me ocorreu como aproveitei pouco essa grande qualidade de meu pai. Eu ficava tão ressentido, magoado, amargurado pelas vezes em que ele fazia tempestade em copo d'água que acabei desenvolvendo uma independência e uma autossuficiência precoces e exageradas. Só apelava para o meu pai quando a situação realmente me parecia quase impossível de se resolver. Uma pena. Porque se eu tivesse recorrido a meu pai em situações não tão críticas, teríamos tido mais momentos juntos e haveria mais histórias nossas. Meu pai viveu e conta muitas histórias curiosas, com amigos e parentes. Eu não sou personagem frequente de suas histórias, e isso porque me retraí demais, me tirei de cena muitas vezes.
Dizem os entendidos nas psicologias e nas espiritualidades que nossa relação com nosso pai é bastante semelhante à nossa relação com Deus. No meu caso, parece verdade. Tenho uma relação dúbia com o Pai Nosso que está no Céu. De um lado, temo os rompantes do Deus do Antigo Testamento. De outro, como pessoa criativa que sou, admiro muito o Criador capaz de realizar essas maravilhas a que a gente até se acostuma de tanto ver todo dia: o Sol, o céu, a Lua, as estrelas, os tantos verdes das plantas, as cores e os formatos das flores... Também poucas vezes recorri a Deus, talvez duas ou três vezes em toda a minha vida, e sempre em momentos desesperados, em que parecia não haver alternativa. À semelhança de meu pai, silenciosamente, nosso Pai também me atendeu de maneira exemplar. Já me tirou de um buraco que só de lembrar me dá arrepio.
Bem recentemente, coisa de um ou dois meses, decidi deixar de lado a birra orgulhosa e utilizar mais esse recurso. Como moro a alguns milhares de quilômetros de meu pai, ainda não exercito adequadamente esse meu propósito com ele. Mas como nosso Pai é onipresente e garantiu que a lei é "pedi e recebereis", estou testando, digamos assim, pra ver se a lei é de lei mesmo. Na hora em que a coisa fica braba, como hoje pela manhã, dou uma inspirada profunda, fecho os olhos brevemente e chamo por Ele: "Vem cá, Pai, por favor, estou precisando de você". Como Ele não precisa fazer nenhuma pergunta para se inteirar do assunto, é onisciente, chega silencioso e só percebo sua presença por um leve frio, uma brisa fresca. Daí em diante, fico confiante de que, eu fazendo a minha parte, Ele fará a dele. Às vezes me afobo um pouco — não sou tão calmo ainda em situações críticas—, mas continua sendo uma questão de minutos para eu sair do desespero e entrar na esperança.
Esta crônica é um reconhecimento e um agradecimento ao meu pai e ao nosso Pai. E também uma declaração de compromisso de que, um dia, eu ainda chego nesse lugar de, quando alguém pedir o meu auxílio, poder transformar o paralisante desespero em esperança ativa.



