quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

TOP NINE >> Carla Dias >>


Admiro muito o John Cusack, não só pelo seu talento em atuar, mas também pela escolha dos seus projetos e pelo seu trabalho como produtor, que inclui o ótimo Nossa Vida Sem Grace (Grace is Gone/2007), no qual também participa como ator.

Apesar de não ser frequentador da roda dos galãs, Hollywood se orgulha dele. Mesmo em blockbusters como Queridinhos da América (America’s Sweethearts/2000) e 2012 (2009), percebe-se que não o moldaram ao gosto do que se espera para os personagens que interpreta. Há originalidade nas atuações de John Cusack.

Assisti, novamente, ao filme estrelado por ele e baseado no livro de Nick Hornby, Alta Fidelidade (High Fidelity/2000). É um filme muito bacana, bom em vários aspectos, como na participação de Jack Black e direção de Stephen Frears. Este filme traz o personagem interpretado por Cusack, Rob Gordon, traçando um paralelo de seus amores e as mazelas da vida adulta, através de listas de hits da música. E decidi fazer como Rob Gordon: selecionei os cinco filmes estrelados por John Cusack que mais me marcaram. Aí está o meu Top Five:


5º lugar
Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal
Midnight in the Garden of Good and Evil/1997
Diretor: Clint Eastwood


4º lugar
Os Imorais
The Grifters/1990
Diretor: Stephen Frears



3º lugar
Quero ser John Malkovich
Being John Malkovich/1999
Diretor: Spike Jonze

2º lugar
Ensinando a Viver
Martian Child/2007
Diretor: Menno Meyjes


1º lugar
Matador em Conflito
Grosse Pointe Blank/1994
Diretor: George Armitage

Agora, me vejo numa bela enrascada, porque um Top Five não me permite citar todos os filmes de John Cusack que mais gosto. Se pensarem bem, fiz um Top Seven, porque Nossa Vida Sem Grace e Alta Fidelidade são demais! Mas se puder chegar ao Top Nine... Incluo também Tiros na Broadway e Identidade.

Para quem não conhece esse ator ou não assistiu aos filmes listados, sugiro que o façam, pois há momentos históricos nas obras que seguem. Eu vou revê-los no carnaval... Uma boa dose de John Cusack ao som dos tamborins.





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domingo, 7 de fevereiro de 2010

HOJE FOI ANTEONTEM >> Eduardo Loureiro Jr.

Às vezes, me sinto desconfortável quando escrevo com antecedência uma crônica que só será publicada alguns dias depois. Gosto da sensação de escrever no final da manhã de domingo e publicar a crônica imediatamente, como quem lança o anzol na água e fica esperando, quieto, aparecerem os peixes dos comentários.

Quando escrevo antes, como hoje, com dois dias de antecedência, sinto-me falso porque vocês vão ler, no domingo, uma emoção requentada, que talvez já não seja mais a minha emoção. Sei que meu motivo é justo — estarei viajando, sem acesso à internet, sem acesso nem mesmo a telefone celular — mas, se isso anula a culpa, não desfaz o sentimento de perda da relação quase imediata com vocês, leitores.

Então fiquei aqui pensando o que eu escreveria se escrevesse só daqui a dois dias. É certo que não terei tempo para isso, estarei com outros colegas escritores planejando mais um ano de atividades da Casa de Autores. E, como sempre digo, reunião se define como um encontro de pessoas para falar de coisas que estariam fazendo se não estivessem reunidas. Com a literatura não é diferente: escritores reunidos não escrevem.

Esses dias, andei mesmo pensando em parar de escrever. Solicitar ao menos uma licença para o chefe do Crônica do Dia, que sou eu mesmo, pedir-lhe que arrume outra pessoa para me substituir por uns tempos. (Algum leitor-escritor aí se habilita?). Algum de vocês já fez algo de que realmente gosta, mas que incomoda as pessoas? Não, não estou falando de determinados tipos de música — e não vou nem identificar o estilo para não incomodar ainda mais gente. Falo de coisas simples, banais. Não, também não é tirar meleca do nariz, que, por mais inofensivo que pareça e seja, incomoda deveras certas pessoas. Falo mesmo de coisas que podem até ser bonitas: feito dança, pintura, literatura, música. E não falo no sentido de artistas vanguardistas que incomodam com suas quebras de normas. Falo de um bolero qualquer, de um retrato, de um conto tradicional, de uma canção de amor.

Porque essas coisas bonitas que a gente faz de vez em quando — aos domingos, por exemplo — deveriam servir para embelezar a vida, para alegrar as pessoas, para animar, para gerar encontros. Mas nem sempre é o que acontece. Beleza às vezes presta um desserviço à paz da humanidade, e não falo aqui das mulheres que passeiam de saia pelas tardes, presas fáceis do vento que tem feito esses dias, e que distraem os pedestres e motoristas que, até então, estavam concentradíssimos em seus percursos. Falo, por exemplo, de um pôr-do-sol que despertasse não admiração, mas raiva. Já imaginaram um pôr-do-sol despertar raiva? Pode acontecer. Não é nada absurdo. Uma flor pode despertar espirros. O sexo pode matar, gente. Não é porque a coisa é boa que está isenta de malefícios.

Então tenho pensado se minha escrita não está fazendo mais mal que bem, se não é menos arriscado trocar a literatura pela meleca no nariz (que eu também gosto de praticar). Com essas duas horas que economizo no domingo pela manhã (hoje, excepcionalmente, na sexta-feira à noite), eu poderia fazer coisas mais nobres e inofensivas: aguar plantas, fazer as compras da casa, passear com minha mulher no parque, ler o jornal, telefonar para a família e para os amigos. A gente, quando está bem intencionado, normalmente pensa que tem que fazer algo, mas pode ser que o caso seja justamente o contrário: é deixando de fazer que a boa intenção se cumpre.

E no domingo, quando vocês estiverem lendo, talvez se produza um paradoxo: eu terei parado de escrever, mas como escrevi antecipadamente, vocês continuarão me lendo. Fiquem atentos ao que pensam e sentem enquanto me leem. Sentem-se mal? Engolem em seco, têm o coração apertado? Estão vendo? Faço-lhes mal. É o caso mesmo de pensar em parar.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

TEMPO [Débora Bottcher]

Chegar aos setenta anos e olhar para trás. Saber: finalmente, tudo passou e o que resta tem sabor de espera... A espera sombria da Morte... O silêncio...

Tons de cinza mesclando o azul dos seus olhos, um emaranhado de vida esquecida... Rugas... A pele marcada nunca será como a alma... Lá, as cicatrizes ainda rasgam-se escorrendo amarguras... Muitas saudades...

Um amontoado de anos perdidos, sobrepostos, amassados e jogados ao chão... Imenso cansaço...

Perdas... Tantas, que perderam-se de si; tantas dores que o coração cessou de bater; tantos sonhos dispersos que, muito cedo, se parou de sonhar: todas as emoções foram ancoradas em folhas de papel, um sem número de Diários descansam agora nas caixas do sótão... Segredos... Algum dia serão revelados? Quem terá tamanha curiosidade para desvendar centenas de páginas com letras incompreensíveis de ler? E de entender...

Quem conseguirá descobrir nos ideogramas rabiscados o interior de uma mulher que por todos os seus anos viveu encerrada num mundo à parte, num lugar próprio, cenário criado por sua ausência de esperança e de compreensão da vida ao redor?

Ela não teve filhos e o Destino nas linhas de suas mãos não tinham muitos traços de caminhos felizes.

Seus dedos tatearam no escuro, escalaram paredes de pedras, arderam entre as areias das praias, mas não tocaram os céus. O rosto de Deus era sua loucura, seu devaneio, sua grande ilusão... Uma mentira...

As considerações de vida das pessoas que conheceu e amou, nunca foram as suas... Sentiu-se sozinha por muito tempo, por todo tempo imersa no “para sempre” à beira de um “nunca mais”... Fantasias...

Assim viveu...

Nunca conseguiu expressar o que lhe ia por dentro. Todo mundo sabia mais do que ela sobre tudo, menos sobre o que realmente importava. E sobre ela, na verdade, ninguém nunca soube nada.

Do alto de si mesma olhava para o mundo sem nenhum encantamento, exceto aquele próprio dos que conhecem a verdade que está por trás do que se mostra. Poucos enxergam...

Mas agora a velhice ao seu encalço. Sua solidão lhe fazendo companhia. Os dias se apagando nos segundos do relógio de parede... Os minutos, as horas... Amanhecer e anoitecer no fim...

Criança de novo, imersa na inocência cheia de sonhos que nunca encontrará. Os pesadelos da noite esquecidos num canto do quarto, ela mesma sentada num canto do quarto olhando para aquela que, no escuro, só entrevê sombras.

E se despede... Dos seus fantasmas, da sua dor, do seu passado... Se despede do único homem que amou – e o único pelo qual foi verdadeiramente amada - para em breve reencontrá-lo... Se despede da Morte, sua maior inimiga, para ser acolhida por ela, calma e tranquila, todos os medos enterrados nos anos que se esgotam...

Agora, tudo se acaba para de novo começar...

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

DEVANEIOS ÀS VÉSPERAS DE UM ENCONTRO >> Leonardo Marona

empato comigo mesmo quando quero vencer a marcha simples do afeto e minha raiva, por mais que sim, não, não cabe, não sou grande o suficiente para morder lábios que não sejam imaginário sangue, e para encarar a própria faringe minha carcaça se apega fácil demais e odeia rádio que se ouve só, e, como Mozart, queria sair por aí perguntando “você gosta de mim?” e poder chorar por uma réplica negativa ou ter uma crise convulsiva se alguém tocasse uma nota de trompete, mas tudo supera a delicadeza e por isso só malucas se aproximam de mim do mim que não é meu, infelizmente, mas gostaria de dizer, ainda assim, para impressionar minha própria fragilidade: “dos trinta filmes que realizei...”, “de fato, dos 15 contos de minha última antologia...”, ou bocas em dúvida por causa de avenidas mudas, tortas, ou espertas demais, ou bichas sérias, o que não me ajuda muito na relação entre o que eu quero e aquilo que eu tenho na minha frente, sem saber no fundo do fato, de fato, que se passa na minha cabeça – isso é apenas uma cabeça? – quanto mais daquela menina com uma rosa falsa presa na orelha, que sorri ainda menos do que eu, e eu a amo, mais porque gosto da palavra que do significado que, burramente, ninguém soube definir assim como se define uma parede branca, sem saber que talvez o amor que já soa ridículo assim quando eu escrevo seja apenas uma parede branca e a mosca morta petrificada na parede branca que eu posso chamar de amor seja eu sem saber que você também tem sua parede, mais falta de amor do que amor em si, já que é tão fácil falar de amor, como se vê aqui.

não que eu goste. mas não também que eu use roupa preta e cabelo com goma, saiba usar a pelve ou camisa de botão aberta florida com cinto de couro, ou um espeto cromado fincado no queixo, ou que dance e abrace todo mundo como se fosse um pretexto para morrer. não consigo extremar sentimentos, respeito seu ritmo ausente de mim. A menos que caia na grama para ser carregado por um senhor barrigudo que parece com o pai que inventei agora e já me tapeou com um sorrisinho sórdido: o que nunca aconteceu e seria meu sonho.

fora o sonho, minha vontade sempre foi beijar uma mulher mais pesada do que eu. ninguém entende isso por isso eu não explico isso, mas é um tipo diferente de enigma sensual. somos iguais no que me diz respeito e nos difere: no caso a dor de ser gordinho. minha cabeça é gorda, sobra gula. pego nas banhas dela como sonhasse com meu próprio desfecho sorridente.

será que sou infeliz? palavras.

se todos bocejam, não me venham falar de chatice. falemos então sobre vaidade.

eu diria: a vaidade é apenas aquilo que se desprende de ti quando você está pensando em outra coisa que você pensa que é a maneira como as pessoas te vêem mas é de fato apenas você mesmo vendo, mas prefiro dizer: “fique aqui”. você diria: “nem pensar”. eu diria então: “você tem uma bela irmã mais nova” ou “como você vai?” você me estapearia. Carlos Drummond responderia: “mal, obrigado, minha irmã é careca”. e diríamos todos “te odeio”. como é estranho e rápido conhecer uma pessoa quando você já inventou ela (seria horrível ter que escrever corretamente aqui) desde o começo.

eu minto
que não consigo
dizer o que sinto
mas sinto
que não consigo
dizer o que minto.

não sei terminar essa
e para dizer a verdade
estou nervoso como o diabo
porque ela me espera
debaixo da marquise
e eu não sei onde estou.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

QUANDO EU ERA PEQUENA
>> Kika Coutinho

Quando eu era pequena, gostava de descobrir coisas tolas do mundo.

Passava séculos olhando o relógio digital, esperando pelo pequeno instante em que o número do minuto iria mudar, para ver como se dava a mágica. Ficava ali, os olhos abertos, concentrada na frente do relógio e, estranhamente, no raro instante em que eu piscava, pronto, o número mudava e eu perdia o grande acontecimento. Até hoje não sei como se dá a troca de um dígito para o outro, no relógio.

Quando eu era pequena e acordava no escuro, sentia muito medo e aflição, porque pensava que poderia ter ficado cega. Quando eu era pequena e acordava no escuro, tratava de procurar uma luzinha qualquer, uma sombra, uma imagem que me mostrasse que minha visão ainda funcionava e...  não, eu não estava cega. Em compensação, quando eu era pequena e dormia com alguma iluminação, dessas bem fraquinhas que confundem a gente, os móveis e a desorganização do quarto sempre formavam monstros na minha imaginação.

Quando eu era pequena, deitava no banco de trás do carro e meu corpo não alcançava a outra janela.

Quando eu era pequena, usava óculos e fazia tudo com eles. Da televisão ao banho, meus óculos de gatinha não me largavam.

Quando eu era pequena, brincava de escolinha, sentava todas as minhas bonecas em uma fila, colava papel sulfite no armário à frente delas e, lá, fazia a minha lousa. Eu era a professora aplicada, a líder exigente, a dona da sala e da situação.

Mas, quando eu era pequena, odiava os adultos que queriam conversar ao telefone e ficavam puxando assunto, da mesma forma que odiava quando alguém dizia: “Você sabia que é linda?”. Eu não entendia bem a pergunta e também não entendia quando me perguntavam se eu tinha dormido bem, porque eu sempre pensava que não poderia saber se foi bem ou mal, eu estava dormindo, oras.

Quando eu era pequena, gostava de tirar casquinha dos meus machucados, gostava de desenho na TV, odiava comercial e salada, mas adorava o gosto doce do nescau, no fundo do copo de toddy.

Quando eu era pequena, dançava na frente do espelho, chorava na frente do espelho, fazia poses ridículas na frente do espelho, como se meu mundo fosse aquele, minha própria imagem refletiva diante de mim.

Eu estava me conhecendo, descobrindo minhas facetas, minhas lágrimas e meus risos. Eu estava tentando descobrir quem era e, hoje, olhando para trás, noto que nunca consegui. A não ser quando não sabia, e fazia xixi de tanto rir por qualquer tolice. Quando eu era pequena.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A EXPERIÊNCIA >> Carla Dias >>


“Experiência é uma professora brutal, mas você aprende.
Meu Deus, você realmente aprende.”

C. J. Lewis


Na teoria, percebemos que somos pessoas capazes de derrubar quase todos os obstáculos que vivemos na prática. E não que essa capacidade seja apenas uma ilusão, mas é que, na teoria, somos mais ousados e desprendidos. Na prática, sentimos falta das facilidades.

Hoje, batendo na porta dos quarenta anos de idade, posso dizer que tenho dentro de mim um Banco de Teorias, que visito frequentemente para ver se alguma delas está pronta para cair no mundo.

Outro dia, reli um poema antigo que só, que diz muito sobre quem eu era bem antes de quem sou hoje. Diz tanto que me envergonhei de ter deixado aquela pessoa lá trás, guardada no meu banco particular, trazendo para a prática somente o que dela era fácil de carregar. Ao mesmo tempo, as experiências que escolhi para viver me soaram ousadas em muitos aspectos, assim como a maioria das que me escolheram deram de me doer aqui e ali.

O grande barato da teoria é que ela alimenta o nosso espírito. Quem já se pegou dizendo “se eu fosse... eu faria...”? E quantos não levaram esse pensamento adiante e se tornaram... e fizeram?

A teoria pode ser o que se propõe: um esboço do que se pretende pôr em prática. Ou pode se tornar uma mistura eloquente de planejamento e sonho.

De qualquer forma, a experiência é a chave de tudo. Experimentar o que escolhemos e o que nos escolhe. Aprender com as situações cotidianas que, ainda ontem, eram apenas teorias. E, obviamente, as experiências nem sempre são das mais agradáveis. Mas, por mais brutal que possam ser, há sempre um aprendizado entranhado nelas.

Aldous Huxley disse: “experiência não é o que acontece com um homem; é o que um homem faz com o que lhe acontece.” As experiências não são apenas as dos laboratórios, dos cientistas, oriundas das práticas dos alquimistas. E se não sairmos da teoria, de vez em quando, seremos apenas pessoas aceitando o que a vida propõe e fazendo absolutamente nada com esse aprendizado. Seremos baús transbordando de teorias, com práticas ressequidas a sua volta. Seremos inexperientes e tolos, alvos fáceis para a intolerância.

Imagem: The Alchemist por Sir William Fettes Douglas

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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

SAUDADE DO CÉU >> Felipe Peixoto Braga Netto

"A morte não
existe para os mortos."
(Carlos Drummond de Andrade)

Eu acredito no céu. Não falo nesse aí, azulão, em cima de nós, por onde passeiam os aviões. Falo em céu mesmo, céu de criança, aquele para onde vão as pessoas boas quando morrem, ou pelo menos assim mandam dizer às crianças.

Sim, é uma bela ideia. Muito verdadeira, suponho. Digamos que ele realmente exista, lá num lugar secreto, que só saberemos quando não podermos voltar pra contar. Sim, partamos daí. O que será que lá estarão fazendo, agora, meus amigos? Não falo dos amigos conhecidos, amigos do dia-a-dia, até porque, honestamente, não tenho tantos. Já tive, mas... Não, não desviemos o rumo da vela.

Fico vagabundamente pensando: o que estará fazendo, agorinha mesmo, lá no céu, Rubem Braga. Sim, velho Braga, penso em você, com afeto viril de irmão mais novo, que não te conheceu, mas que te quer bem...

E o Paulinho Mendes Campos, teu camarada? Vocês tem se visto por aí? Há belas mulheres no céu, Rubem? E mar? Há mar no céu? Creio que tua cachacinha, tão amada, não seja permitida por aí. Mas há outras seduções, suponho, que nós, aqui do aquém-túmulo (a expressão é de Rosa), não podemos sonhar. Não é assim?

Aliás, não foi ele quem disse que ficamos todos encantados? Como é ser encantado? Assim, em princípio, me parece coisa pouco máscula. Você sabe... Nasci no nordeste. Vá lá, encantado em tese, tudo bem. Mas encantado mesmo, como é que fica? Acho que divago, não? Perdoe minhas bobagens, vou me agarrar em coisas reais.

Mulheres há, não? Tem de haver. Nem todas estão quebrando pedra no inferno, ora! Aqui entre nós, eu digo baixinho: a vida (minto, a morte), sem elas, perde o sentido. Pelo menos eu acho. É possível que vocês, anjos que são, achem tudo isso uma tolice de vivo. É possível. Nossas opiniões são elas e suas circunstâncias.

Fazer poesia no céu deve ser mais fácil. Suponho. Sabe como é, em cima das nuvens, com uma visão, digamos, mais privilegiada das coisas... Deve inspirar pra burro, não? Murilo Mendes sentenciou: não poderá ser poeta quem nunca sentiu saudade do céu. Então eu posso, porque, puxa, ando com saudade daí. Ou do que eu imagino que seja. Mas passa.

Estive pensando... Morto, imagino, tem superpoderes. Eu, quando chegar, também quero. Não, não é olhar de raio-x não. Não quero ver as anjinhas em trajes sumários. Também, que ideia vocês fazem de mim! Talvez aceitasse ler os pensamentos alheios. Isso acabaria com o dilema daquela frase clássica de Skakespeare: "Não passam de traidoras nossas dúvidas, que às vezes nos privam do que seria nosso se não tivéssemos o receio de tentar" (Medida por medida –1604/1605. Ato I. Cena IV: Lúcio).

Acho que ando mal. Citando o poeta inglês... Atribuindo-me evidentemente um ar culto, logo em frente de quem? Mortos, que tudo sabem, e veem bem a fraude que se esconde atrás desse verniz torpe.

Mas me redimo do mau proceder dizendo: estou com saudades... Saudades, bem, é verdade, não é o termo apropriado. Nem chegamos a nos conhecer, se conhecer o outro exigir apertos de mãos, conversas tolas sobre o clima, etc. É, isso não tivemos. Em contrapartida, há pessoas cujas mãos apertamos com lamentável frequência, e não nos conhecem nem, a rigor, disso fazemos questão.

Tivemos, minto, eu tive, um contato terno com vocês. Eu os estimo verdadeiramente. Nos momentos decisivos, é com vocês que converso. Pergunto: "E aí, Paulinho, que fria, não? Já esteve em situação semelhante?" E sinto uma mão amiga, um fraterno entendimento a me amparar. Ou então penso no Braga. Esse é casmurro, todos sabem. Não dá muita atenção a meus pleitos. Aprendi, porém, a gostar dele assim, com seu cordial mau humor. Não seria o Braga se fosse diferente.

Confesso? Não sei se devo... Vá lá! O que queria, queria mesmo, era escrever um livro (um livrinho de literatura!) e tê-los no dia do lançamento, na noite de autógrafos. Não precisavam comparecer sorrindo não. Podiam ir de má vontade, falando, naturalmente, muito mal do livro, incomodados com o abuso do convite. Mas queria... Desejo não se discute. Ponto final.

Se não forem, tudo bem... Nem assim ficarão livres de mim. Sim, porque os chatos também morrem. Não quero excepcionar regra tão cara a Deus. Chegarei, cheio de curiosidades de vivo, roubando-lhes o tempo (que aliás não lhes falta) – eternidade é pra essas coisas.

Há quem pense bobagens sobre a morte ("Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada", disse, certa vez, a natureza). Não, sei que não é assim. Sei que vocês estão, sim, por aí. Sei que um dia ainda lerei coisas aborrecidas, irônicas, ternas, do velho Braga. Lerei a cultura doce do Paulinho. Quem sabe um poema de Drummond sobre a distância do céu?E o Mário, esse furacão de pensamento, ágil, generoso, feliz. Onde estará?

Porque morrer... Morrer não é coisa ruim não. Isso de morrer não tem importância – explicou Mário de Andrade, já que falei nele –, o importante é viver um pouco agitando e encantando a vida. Eu, do aquém-túmulo, concordo. Também não tenho pressa. Preciso de certo tempo para desenvolver a arte.

Ah, e o Bandeira, com seus versinhos tão poesia, tão parecendo simples, e tão eternos. Anda escrevendo muito? Chega, não vou cair na tentação fácil de querer, que diabo, citar todo mundo. Ponto final. Vocês que são mortos que se entendam! (Que mania, essa minha, de querer agradar o céu e a terra!).

Eu do céu só conheço o que vi dos aviões – e reconheço que achei bonito. Espero que, no céu dos escritores, vocês tenham ganhado umas nuvens boas. Sim, porque cada um tem a nuvem que merece, não? Seria engraçado imaginar as nuvens... A do Braga deve ter uma vista humilde para o mar, talvez um lugar para pescar peixes e algumas ingênuas alegrias. A do Paulinho, como é a do Paulinho? Será que ele, fantasma bom e tímido, dá uns sustos nos vivos? É uma boa ação, pois há, aqui na terra, vivos bastante mortos, precisando de vigorosos sustos.

Ah, ia esquecendo. Quase caio duro! Estava lendo, velho Braga, por acaso, um roteiro com suas atividades intelectuais enquanto vivo (o que foi, o que não foi, os cargos que ocupou, essas coisas) e lá me deparo com uma informação espantosa. Vou transcrevê-la literalmente para que não pensem que faço graça:

"1962 – São Paulo SP – Ator do filme "Pluft, O Fantasminha", de Jean Romain Lesage, baseado em peça homônima de Maria Clara Machado".

Braga, não é que você foi ator? Mas quem diria... Eu botava a mão no fogo que não. Esse seu jeitão emburrado, pouco loquaz... Ator! Na certa você foi o fantasma, não? Era você o Pluft? Um fantasma cordial, como você diria. Então você tem experiência! É, rapaz, pensando bem você daria um bom fantasma. Esse tal de Jean Romain Lesage devia saber das coisas.

Ah, doces amigos ausentes, a terra continua o que foi, confusa e vulgar. Sim, há coisas boas – esse azul muito puro, esse mar infinito, essa lua gentil. Mas disso não falo para não inspirar saudades. Desejo-lhes (vocês merecem) o céu dos bons, com uma pontinha de saudade daqui, mas longe das pobres aflições serenas. Ah, e amigos se visitam! Como eu não chego aí logo (espero), vocês bem que podiam – de vez em quando, quem sabe – dar um pulo aqui, ver o mar e os netos, e, puxa, me ver também. A passagem não está cara e a distância não é tão grande. Não para quem pode voar. Façam isso, tomem o rumo do sul, e dêem uma olhada nessa vida sem rumo. No mínimo é uma boa ação, e fantasmas cordiais vivem disso.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O SILÊNCIO >> Albir josé da Silva

Próprio e alheio, quando devido, deve ser um direito sagrado. Em situações de estresse não se deveria exigir ou dar explicações. Ou melhor, as explicações deveriam ser proibidas. Um silêncio consternado pode ser boa alternativa a explicar o inexplicável, defender o indefensável ou justificar o que não se deveria ter feito. Também não tenho conseguido ficar calado sempre que devo. Mas preciso exercitar isso. Não gosto das minhas desculpas. Mesmo quando verdadeiras, fico com a sensação de que o ouvinte está pensando: esse cara acha que eu sou idiota de acreditar numa história dessas?

A Constituição Brasileira de 1988 consagrou o direito ao silêncio. Antes dela, o silêncio podia ser interpretado em prejuízo do silente. Mais um motivo para pensar duas vezes antes de falar. A sabedoria popular sempre ensinou: em boca fechada não entra mosca. Quem fala quando deveria se calar faz péssima propaganda de si mesmo. Tenho ouvido algumas desculpas e explicações que deixam envergonhados os ouvintes.

No Congresso Nacional já vimos deputado envolvido em corrupção até a raiz dos cabelos que, quando espremido pelos seus pares para explicar milhões desviados para sua conta, afirmou: “Deus me ajudou e eu ganhei muito dinheiro”. Claro que isso não ajudou sua defesa. Por que ele não ficou calado? Por que não poupou nossos ouvidos?

A Bíblia relata que Caim foi interpelado pelo todo-poderoso quando voltava do assassinato de seu irmão Abel. Não podia ter silenciado? Em vez disso respondeu irônico: “Porventura sou eu guardador de meu irmão?”. Fico imaginando quanto isso não aumentou a divina ira.

Mas são assim os homens em todos os tempos. Mesmo aqueles que precisam ser hábeis com as palavras. Aqueles que têm por profissão falar em nome das pessoas, dos países. Os que não podem usar a palavra em vão. Nem estes conseguem manter o silêncio devido.

No auge da tragédia do Haiti, quando milhares de corpos se amontoavam insepultos em Porto Príncipe, todos entenderiam se o cônsul haitiano sofresse uma crise nervosa, chorasse ou arrancasse os cabelos. Mesmo tendo ele o dever de falar por seu país, mesmo sendo uma entrevista, todos entenderiam se tivesse ficado em silêncio. Mas ele fez exatamente o que não poderia ter feito. Disse que a desgraça de seu povo era uma coisa boa porque assim o país ficava mais conhecido. Não satisfeito, acrescentou que a tragédia se devia à macumba que muitos haitianos professavam.

Não só para os haitianos, o seu silêncio teria sido um bem para a humanidade. Agora o planeta terra terá de conviver com mais essa poluição.

Pobre Haiti. Quem tem um diplomata desses não precisa de inimigos. Nem de terremotos.