"os viciados"
eles já não precisam mais de nós
nem mesmo no Harlem americano.
sedentos e pálidos caminhamos,
cheirando a caramelo, nós os que
se atiram cegos na primeira chance,
e se arriscam por trás de pilastras.
peço a gentileza de atravessarem
em silêncio, em reverência retirem
todos os seus chapéus e escarrem
no chão pela passagem meteórica
dos que suportam a terra nas costas.
não pensem que vieram de longe,
estão nos quartos, cheirando a mofo,
atraídos ainda pela prima vertigem.
"elegia do recife"
faça-me escrever em lágrimas,
recife, e limpe toda a incompreensão
da saudade forçada nas virilhas.
serei agora forte, como tuas ruas
semi-asfaltadas, os paralelepípedos
da tua dor, onde enfiei em sangue
a âncora do meu tesão, nos corais.
"rúbia"
você me
olha sem
querer
nos olhos
e já não sei
se tenho
olhos para
ver nos olhos
o que não
vejo mais.
"luana"
existem narizes que codificam a existência.
e não são só narizes, são olhares ávidos
em direções opostas, e além do nariz,
há também o cabelo, que não é um cabelo,
mas a Mata Atlântica, e aqui está a vontade
reprimida de se lhe fazer num grande coque,
olhar a nuca que anuncia graves presságios
e tombar na cama, como se fosse apenas
mais um nariz, e a pérola por dentro da boca
explicaria a poeira cósmica que justificaria
toda flor entre dentes, qualquer ato de amor.
"maracaípe"
tem coisas que os olhos vêem,
o coração não pode mais sentir.
que tristeza é ter
a felicidade nos braços
e a síndrome de tempo algum.
existem momentos
em que não existimos,
somos o parado da existência.
e o tempo é só um sem ruído
que regurgita nas entranhas
do esquecimento.
"recife antigo"
sou marinheiro encalhado,
cheguei aqui aos pés da besta.
há anos querendo
voltar para Santos.
sigla comum é L.P.P.:
loira do pentelho preto.
aqui me transformei
num autêntico boquinha de cais.
aqui, enfim, reparei
que só se pode amar
o que for passível de
ser destruído em pó.
http://www.omarona.blogspot.com/
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
TENSÃO DO RECIFE >> Leonardo Marona
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quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Querida Sofia,
Você ainda não sabe, mas a cidade está ficando muito diferente.
Hoje mesmo, aqui embaixo, no prédio, começaram a enfeitar as árvores. Os shoppings já estão todos iluminados e coloridos, puseram árvores enormes dentro deles, com laços e pisca-pisca diversos. As luzinhas colorem e embelezam a noite de São Paulo.
E sabe o que isso significa?
Isso significa, filha, que você está para chegar... E a cidade — não, a cidade só não — o país, o mundo inteiro, está enfeitando as árvores e as ruas com luzinhas brilhantes para recepcionar você.
Logo que eu soube que estava grávida, lá para abril ou maio, eu pensei: "Quando ela chegar, vai ser uma festa". E está sendo mesmo. O curioso é que eu não avisei o zelador que você estava chegando, não falei nada para o prefeito nem para os donos dos shoppings, mas eles devem ter visto o tamanho da minha barriga, e logo imaginaram. Eu bem que achei que o porteiro cutucou o faxineiro aqui do prédio a semana passada, quando me viu. Não pude escutar bem, mas, de certo, um falou pro outro: "Aí, olha o tamanho da barriga, a Sofia deve estar chegando, vamos arrumar tudo, mano, manda buscar as luzinhas aí, pra arrumar o prédio pra garota..." E assim foi. Depois, sabe como é, a notícia se espalha... Um falou para o outro, que falou para o outro, que falou para o outro e todo mundo já ficou sabendo. Agora, em todo lugar tem pinheiros enfeitados com luzes e laços. As cores que a maioria escolheu foram vermelho e verde. Laços e bolas enfeitam as árvores, é uma maravilha de se ver, filha. Outro dia, vi, pela internet, que Nova Iorque também está iluminada, acredita? Não pensei que a notícia fosse chegar tão longe, mas, para você ver o quanto é especial, Sofia, até lá eles iluminaram as árvores, enfeitaram as portas das casas. Não faço idéia de como descobriram, mas hoje em dia as notícias correm muito depressa, tem internet, informações online, também tem meu blog, né? Alguém deve ter visto, um brasileiro que mora lá, não sei, e foi contando para os outros. Falou da nossa história, falou da sua chegada, ao que todo mundo se emocionou e tratou de tornar o mundo mais bonito...
Não demore, querida, mas também não venha cedo. Tem prédios que estão começando agora. Eu tratei de deixar escapar que ainda faltam uns 15 dias, para todo mundo se programar. E eles estão correndo, Sofia, estão trabalhando à beça, embaixo de sol.
Quando voltarmos da maternidade, nós três, eu vou acenar para as pessoas e mostrar para você que beleza que ficou o mundo, inteiro arrumado, inteiro preparado, só para te ver chegar... Talvez você ainda não entenda bem, mas há de abrir os olhos pequenos para todo esse encantamento, e há se sentir aí, bem no fundo do peito, o amor que guardamos, eu, seu pai, a sua família, e todo mundo, todo mundo mesmo, até nos Estados Unidos e na Republica Checa, até na Itália e na Conchichina, todo o mundo, inteiro iluminado e enfeitado, cheio de amor, só para ver você chegar...
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quarta-feira, 18 de novembro de 2009
A MULHER, A MENINA E O DUBLÊ
>> Carla Dias >>
Enganou-se a mulher sobre aquele ser um filme leve, dos que fazem dormir. Minutos depois de ela sintonizar o canal, apareceu o Lee Pace, ator que ela admira muito, e então ela ficou mais animada. Lembrou-se dele naquele seriado muito bacana: Pushing Daisies.
O santo Google lhe contaria também, depois de assistir ao filme, que o título dele é “The Fall”, mediocremente batizado no Brasil como “Dublê de anjo”. Tudo bem que a trama fala sobre dois pacientes de um hospital, o dublê, Roy Walker (Lee Pace) que, depois de viver uma perda muito das sofridas, empenha-se em se tornar um suicida, e essa menina que adora ouvir histórias fantásticas, uma fofa (desculpem, mas a mulher não conseguiu se segurar e, ao assistir uma das cenas, disse baixinho: que fofa essa menina!), mas “Dublê de anjo” dói no coração.
Catinca Untaru, que vive a menina Alexandria, nasceu na România, e desde muito pequena, cultivou um profundo interesse pelo fantástico e pelas lendas, tornando-se uma contadora de história convincente, o que é claro na sua participação em “The Fall”. Aos quatro anos começou a fazer aulas de inglês e o seu sotaque é uma das delícias desse filme. O ritmo da contadora de histórias menina é de uma graça que dá vontade de entrar nesse sonho ou trazê-lo para a nossa realidade. A mulher doida-varrida concorda com tudo isso.
A mulher assistia ao filme, mas não conseguia se libertar dos pensamentos de antes. A alma ficou condoída por Alexandria e Roy, mas também por si mesma. E a mágica estava lá: os personagens na televisão e ela quase lá, ao lado deles.
Quem estiver com mente e coração disponíveis a embarcar numa jornada de lágrimas e belíssimos sorrisos, pode fazer como essa mulher fez: pegar na mão de Alexandria e na de Roy e seguir adiante.www.carladias.com
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terça-feira, 17 de novembro de 2009
ACABA NÃO, MUNDO
>> Felipe Peixoto Braga Netto
Dizem que em 2012 o mundo vai acabar. É uma pena, eu tinha bons planos para ele. Não para o mundo, com eme maiúsculo, mas para o meu mundinho mesmo. Pelo menos o mundo vai acabar numa data bonita, numa data especial: em 2012 faz dez anos que cheguei em Minas. Merecia placas, fogos, explosões. Opa, que dizer, nem tanto, vai que o mundo tá ouvindo e leva a sério...
Acaba não, mundo! Pensa bem. Eu sei, há coisas feias e más, se eu fosse você de vez em quando também ia querer explodir. Mas veja o outro lado: tem eu, tem a Praça da Liberdade, tem as filhas de Minas, tem tanta coisa linda por aí. Acabar assim, sei não, é desperdício, não acha?
Afinal de contas, eu nem fui assim tão feliz ainda... Eu sei, eu sei, sou meio ingrato, mas isso não é motivo para acabar tudo, é? E os filhos que ainda não tive, eu boto onde? Porque eu certamente teria se você não fosse tão radical assim. E seriam pessoas legais, você sentiria orgulho.
É verdade que, você acabando, acabariam também alguns problemas: eu não veria mais o Galo perdendo, não sofreria regime toda segunda (que dura até terça, no máximo), não pegaria trânsito. Mas alguém pode argumentar: "Tanta música bonita, tanto filme bom, tanta viagem que a gente não fez..." Pois é, eu também acho, concordo.
Acaba não, mundo! Deus não ia gostar, garanto. Essa sua rebeldia juvenil não fica bem em alguém, desculpe, tão velho. E Deus, você sabe, criou tantíssimos mundos, são muitos irmãos navegando por aí. Por que logo você vai fazer isso?
Está bem, não vou insistir. Não falo mais nisso. Mas se você quiser muito acabar, promete deixar Belo Horizonte sobreviver? Promete mesmo?! Ainda bem. Só ela não, também eu, é preciso alguém para apreciar a paisagem. Apreciar sozinho não tem graça, né? Deixa também o meu amor, vai ser preciso continuar a espécie. Eu nem queria grandes tarefas, mas fazer o quê? Sobrou pra mim.
Combinado?
Do amigo Felipe, futuro Adão.
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segunda-feira, 16 de novembro de 2009
A CANETA >> Albir José da Silva
Fico esperançosa com a nova folha limpa. Quem sabe agora vai? Já começou tantas vezes. Eu ficava animada com a determinação com que era empunhada. De repente, num gesto brusco, tudo riscado. Já perdi a conta das folhas amassadas.
Por que ele não insiste? Por que não acredita? Tem ótimas idéias. Até eu fico inspirada. Sinto vontade de continuar o texto sozinha. Vejo mil possibilidades...
Eu queria não me importar com isso. Se faço o meu trabalho, por que me preocupar com os outros? Por acaso alguém me cita ou pensa em mim quando lê alguma coisa? Nunca falhei, nunca borrei o papel, nunca manchei a roupa de ninguém – isto devia me bastar!
Três palavras, ...quatro, ...a mão está firme, escrevendo rápido. Já são duas linhas e parece que vai continuar. Aleluia! Não pare! Quem já escreveu meia página tem o que dizer. E este personagem pode render muita coisa. É só acreditar...
Traiçoeiramente a mão esquerda vai puxando o papel antes mesmo que eu me levante. Vou deixando um risco involuntário na folha que vai ser amassada. Minha ponta cai desanimada na superfície áspera da toalha.
Contraio-me com todas as forças e tensiono a mola, atirando a tampa no olho deste idiota que deveria ter sido pintor. Desde que eu não fosse pincel, é claro.
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domingo, 15 de novembro de 2009
BROXEI >> Eduardo Loureiro Jr.
Nunca me aconteceu antes. Eu juro. Não que eu seja assim um sujeito infalível, mas quando se trata daquilo — ou disso — a verdade é essa: eu nunca havia falhado antes. Dava uma, duas... Mais de duas não, porque não vou mentir. De três em diante, só futebol de antigamente e orgasmo de mulher — se a gente acreditar no que elas dizem —, mas umazinha eu sempre garantia. Não precisava de muita coisa pra ficar a postos — se é que vocês me entendem. Tem gente que precisa de um bocado de estimulação, tentando pegar carona no ato alheio. Comigo não. Se está na hora, eu boto o time em campo e mãos à obra. Não que eu faça automaticamente, burocraticamente, feito quem bate ponto ou cumpre meta de desempenho. Nada disso. Faço por prazer, puro prazer. Fazer sem prazer é feito comer bombom com papel, e não estou me referindo a camisinha. É bom se precaver, tomar cuidado com o que vai daqui pra lá e com o que vem de lá pra cá, embora pensar nisso seja um pouco broxante. Será que foi isso: a expectativa, a vontade de agradar, a ansiedade de, talvez, não satisfazer? Nessas horas, é melhor deixar de lado o pensamento e ir com a emoção. Tudo bem, emocionalmente a gente está sujeito a exagerar, pegar pesado, ferir, ofender, mas o outro não é mais o mesmo, hoje reclama mais da escassez do que do excesso. Claro que todo mundo quer flores, mas, se faltar flor, é bom que tenha pelo menos um tapa na cara. Emoção forte parece ser a droga mais automedicada pelos anestesiados em geral — todos querem qualquer coisa que drible a mesmice. Surpresa, então, é fundamental. Se não maravilhar o outro, prepare-se para a insatisfação, para as cobranças: "Por que você não... isso? Por que você não... aquilo? Você deveria... Da próxima vez... Se você não..., então eu... Tá pensando que eu sou o quê? Você não é mais o mesmo de quando lhe conheci." É broxante ouvir — até pensar em ouvir — essas coisas. "Não vem com desculpa..." Tudo bem, tudo bem, sem desculpas, admito, falhei, mas foi a primeira vez, pega leve, sou réu primário. Nunca me aconteceu antes. Eu juro. Fiquei sem inspiração. Só consegui dar essa — crônica — rapidinha.
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sábado, 14 de novembro de 2009
O LUGAR DO SAGRADO [Sandra Paes]
Faz pouco tempo uma rede aberta de televisão brasileira lançou uma série com o nome de “O sagrado”.
Fiquei entusiasmada pela novidade. Ando enfadada com todos os programas de humor sem humor algum, a repetição crônica dos mesmos temas, mesmas caras e o enfadonho estilo de autopromoção, como um programa contínuo de narcisismo, pra mim inútil e totalmente desnecessário.
Sim, sou uma pessoa fora de moda. Não faço parte do quadro da popularidade das pesquisas, não ouço Madonna e me confesso encolhida diante dos sons de rock and roll nos autofalantes dos carros ou em qualquer outro espaço. Aquela batida, tipo bate-estaca, me deixa fora de centro e, de fato, me dá a sensação de desalinho dos chakras. O mundo anda barulhento demais para o meu gosto e o que se expõe nas vitrines me parece sempre uma ode quase que ridícula — pra ser delicada.
Faz tempo não experimento algum entusiasmo com relação a programas de entrevistas, até por que os entrevistadores parecem sempre tão medíocres a falar em torno de coisa nenhuma com um ar de total falta de entendimento sobre o assunto abordado.
Tenho quase sempre que reduzir o volume na hora das divulgações dos noticiários porque os locutores parecem ficar um tanto quanto exagerados em seus tons de falar sobre fatos corriqueiros, sempre em torno de roubos, desordens, crimes, violências e outros tais que parecem só interessar mesmo aos fazedores de pautas marrons.
Sei que a vida humana não é apenas isso. E onde estaria a chance de se criar algo a ser passado na telinha que de fato elevasse de alguma forma meu espírito que anda cabisbaixo, encarnado, com tantas propagandas em torno de como sustentar o corpo pra se prolongar a longevidade?
Céus! Viver mais apenas pra esticar mais dias em torno das mesmas coisas? Cadê o toque do sublime? Eis que surge uma pequena chance. Um seriado sobre as religiões no mundo, onde as pessoas depositam sua fé ou sua tentativa de encontrar Deus.
Mas, é claro, tinha que haver um porém. Todo os programas ruins vão para o horário nobre. Não podendo suportar a paupérrima programaçao de fim de semana, tendo que aturar horas a fio programas onde o público é chamado de galera (cá entre nós, que horror!), fica ou sobra a constatação cruel que a busca da sabedoria não pode ser encontrada nesse veículo tão fascinante que é a televisão.
O lugar do seriado Sagrado foi colocado às seis da manhã, isso depois de procurar muito, porque a propaganda, muito escassa, fala que o programa vai ser veiculado logo depois do telecurso.
Agora, antes do telecurso, tem todas as repetições das novelas dramáticas, em torno do mesmo tema de sempre, e a repetição dos programas do horário dito nobre, aqueles com cara de preenchimento de linguiça, sem trema e sem tempero nenhum. Me sinto exposta à condição de inteligência parca, sem nenhum senso crítico, e me perguntando: por que temos que engolir essa gororoba?
Agora, ficar esperando até cinco e pouco da manhã pra ter acesso ao Sagrado é de uma profanice a toda prova. Mas dá mesmo pra ficar inquieta. Por que será que nesse mundo tão vasto o lugar do sagrado tem que ser sempre o último? As anorexias, as bulimias, o jogo perverso das relações conjugais, os roubos governamentais, as formas mais diretas de propagar o mal e suas façanhas sempre ganham muito espaço e muito tempo de exposição.
Sim, minhas escolhas não constam dos cardápios oferecidos, nem minhas preferências são expostas nas vitrines por aí. Não tenho vícios ou adicções, e por isso mesmo me torno ainda menos popular.
Posso me considerar socialmente excluída? Começo a pensar que sim. Faz tempo que ando querendo saltar do planeta exatamente por estar cansada de procurar e não encontrar, é claro, continuidade na sustentação da leveza de ser.
E o que se paga de impostos e outras coisas mais, vendendo nosso tempo de viver, só pra se ter onde pôr a cabeça e alimentar a carne, suas vestimentas e direito de ir e vir? Faça a conta, se ousar. É toda a sua vida.
Ou somos todos muito bons atores, ou todos muito ridículos e deficentes mentais e emocionais pra continuar sustentando todo esse sistema falido e falível.
Valha-me Deus!
Procura-se um lugar onde o Sagrado está e fica. Esse pode ser meu anúncio de busca de trabalho real. Alguém sabe?
Deixo o rastro da inquietação básica que me faz rolar como uma pedra em meio a tantas outras de enchentes devastadoras. Será que sou eu? Dá pra desconfiar desse incômodo contínuo. E, ohhhhmmmmm! E de novo e, mais uma vez, pra segurar as ondas que rolam no abdômen denunciando uma tsunami de emoções não controladas.
Os seriados americanos continuam recheadíssimos de crimes, as hipócritas cortes de justiça (essa coisa imperial que ainda existe) que fazem todo teatro pra convencer os sensos de jurados de que suas percepções sobre verdade e mentira podem funcionar.
E, quando não é isso, todas aquelas produções de carros em velocidade, psicopatas à solta, produzindo toda série de barbaridades e os contínuos ensinamentos de como usar drogas de todos os tipos com bastante closes para deixar bem claro nas mentes da audiência as receitas doentias.
E eu, ainda à cata do que seria o momento do Sagrado, constato, depois de uma noite de espera, que o dito espaço é de dois minutos. Isso mesmo. Se pegar pegou, senão trate de se alimentar de venenos e ainda correr atrás da felicidade. Será que não tem mesmo um governo malévolo atrás de tudo isso? Sim, porque chamar a isso de gosto de audiência não dá pra engolir, não.
Dizia Jung que quem olha pra fora sonha e quem olha pra dentro acorda. Eu já não sonho mais, nada desejo tampouco, e isso é no mínimo triste, porque para o que o mundo vem ofertando em suas vitrines, eu passo. Meu controle remoto não tem a tecla delete.
Talvez o lugar do sagrado tenha ficado em algum cantinho do meu cérebro, do meu coração, tentando reter o dom de contemplar a beleza e a paz do silêncio que ainda sei fazer...
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sexta-feira, 13 de novembro de 2009
A NOVA INQUILINA >> Leonardo Marona
Não saber de sua pele me dá a chance de navegar por suposições agradáveis. Será que ela inclina levemente a cabeça para a direita quando sorve o café – adoçado ou puro? Poderíamos, fico imaginando, nos comunicar perfeitamente em códigos ausentes, diagnose do sentido, feixe de imagem improvisada?
Confesso: gostaria muito que ela deixasse as calcinhas penduradas na torneira do chuveiro, depois de lavá-las. Não exatamente por fetiche, mas por segurança. Talvez haja algo de maternal nessa vontade: é provável.
As coisas foram se acumulando pela sala, como um corpo desaparecido que habita os confins de uma intimidade violada mesmo antes de se estabelecer. É tudo muito confuso. Ela anda, bebe líquidos, acumula pequenos bibelôs, tem jeito de quem gosta de ter carinhos sutis com objetos pequenos.
Mas, preciso dizer mais diretamente sobre o caso, estou desfalecendo por causa desse impasse cortaziano: o saber que se está no que não se pode ainda ver, rodar esquisito em volta do tema sem tocá-lo, no entanto, em fogo, aí está a doença do descobrimento forjado e aí está o prazer máximo dos cheiros, da invenção dos sons. Dirá ela bom dia como qualquer um? Por exemplo: olhará ela para os olhos ao brindar com aguardente? Talvez o fato de não saber de nada seja o único fato que permita perguntar a esmo, delicadamente.
Cansado. Cansadíssimo. Ontem mesmo, não consegui entrar na casa. Incomodava muito o fato de que a fantasia poderia ser estraçalhada a qualquer minuto, então seria tomar um café, enrolar um cigarro em papel propício, falar sobre influências, desejos de amor e paz. Girar em espiral pode se tornar extremamente perigoso a partir do momento em que não se reconhece mais nenhuma outra estrutura mais objetiva entre dois seres humanos. Estarei eu prestes a me tornar um personagem de Cortázar, que gira em torno da fera conforme os quartos vão se apequenando? Terá se tornado um vício fazer perguntas sem desejar qualquer resposta, ou pior, sabendo que no fundo qualquer resposta limitaria imediatamente o interesse por qualquer pergunta?
Dormi ontem, enfim, no hall de entrada, não consegui dar o passo, quebrar a espiral. Estou a pele e osso, mal consigo raciocinar. Funciono pelos cheiros, pelos objetos, pelas escolhas do espaço ocupado. Que modo terá ela de ajeitar o cabelo no topo da cabeça, enquanto morde a língua e se concentra para, por exemplo, manusear um estilete?
Olharei pela fresta antes de entrar. Melhor que isso: dormirei para sempre no corredor. Não posso vê-la, seria um suicídio, estabeleci regras morais iminentes, que me arrancam dos pés o movimento fulminante. Ver demais seria um crime premeditado, preciso ser um detetive honesto. O bom detetive não vai pelo caminho mais fácil, vai pelo caminho mais amplo. Repito para mim mesmo a frase vinte e cinco vezes. Há um espelho no corredor e, para minha surpresa, já não sou mais eu mesmo diante do espelho. Reparo que ganhei certa espessura na barba, os olhos se descoraram em cinza, cresci muitos centímetros. Os ossos estalam por dentro da pele e sinto ganas de tomar um chimarrão. De repente falo belga, francês, ouço jazz, brinco com soldados de chumbo num pátio imaginário. Vou virando, em suma, bem mais Julio Cortázar do que eu mesmo. “E que surpresa ela não terá”, penso, “quando olhar para mim e souber que escrevi seus mais ternos sonhos, quando reparar que o nosso não-encontro violou minhas antigas feições, que sou o mestre samurai, o anti-herói tímido da literatura castelhana?”.
Sinto que um desfecho seria pôr, demasiadamente cedo, tudo a perder. Preciso funcionar dentro dessa nova moral inaugurada, o que significa, acima de tudo, não vê-la jamais, para poder pensar nela e, conseqüentemente, em mim. Precisamos, afinal, agir de acordo com a angústia de não ser possível saber. Mas saberei dela pela água nas plantas, saberei dela por uma máquina de escrever, saberei dela pela janela entreaberta, saberei um cacto, os livros de arte, saberei os objetos. Transformar tudo numa busca material sem precedentes, e tudo ficará tranqüilo por um instante, e poderei dormir como se, não a conhecendo, pudesse me colocar em estado de igualdade com ela, já que não conheço também a mim, nem muito menos a Julio Cortázar.
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