sábado, 17 de março de 2012

A VIDA DA GENTE >> Maria Rachel Oliveira

A vida da gente

"Tempo, tempo, tempo, tempo". Dizia o refrão da trilha sonora da primeira novela das seis que se soube ter feito sucesso. Acabou na Rede Globo há coisa de um mês, se não me engano. E porque fez tanto sucesso? Sempre tinha alguma situação naquele folhetim com que a gente se identificasse. Nós no outro... mas voltemos ao tempo. O que, diabos!, é o tempo? Como medir o tempo?

Tempo, pra mim, se mede com emoção. É tanto quando aquele momento chato não passa quanto quando aquela situação que você sonhava se concretiza e passa tão, tão rápido...

Relógios não medem o tempo. Eles medem coisa outra, que nem sei que nome dar. É preciso demais para medir a vida.

Mas porque falar de tempo? Coisa mais batida! Mas dia desses descobri um projeto bacanérrimo, de um moço querido que conheço do twitter, o Nick Ellis, lançado em janeiro. Chama-se Projeto 366. Ele se propôs a tocar uma música por dia, durante o ano, pra registrar essa passagem do tempo de um jeito muito, mas muito bacana mesmo. É uma variação bastante interessante sobre o tema-tempo. O 366 no lugar do padrão 365 deve-se ao fato desse ano ser bissexto. Os esotéricos que expliquem porque o moço escolheu justo ano bissexto pra cantarolar. Eu, que tô adorando o repertório que ele escolheu, tô só visitando o site e achando ótimo. Tem muita coisa boa lá e vale conferir no Tumblr do moço (http://366musicas.tumblr.com) para tirar suas próprias conclusões.

E, atenção: o mais curioso disso tudo é como o tempo nos pega pelo pé quando nos propomos fazer essa viagem junto com ele. Músicas marcam a vida da gente, né? E como marcam... eu, nessas canções, viajei do meu primeiro namorado até o Rock in Rio de 2011, passando por férias de verão em Guarapari na minha infância - entre outras coisas mais, que não conto.

Foi uma viagem boa. Sem a poeira e o mofo que tantas vezes acompanham aquela caixa no fundo do armário. E, a melhor parte: com trilha sonora. Se quiser viajar na sua vida e no tempo de um jeito diferente, não perca um minuto e corra lá. E, claro, depois me conte por onde foi que você andou.

Ah, e uma outra curiosidade, qual música não poderia faltar na trilha sonora da sua vida, hum?

sexta-feira, 16 de março de 2012

PIOR CEGO É O QUE NÃO QUER VER >> Zoraya Cesar

Dizem que todo o cuidado é pouco; que o seguro morreu de velho, mas o desconfiado ainda vive; há que se dormir com um olho aberto, outro fechado; colocar um pé atrás, outro na frente; fazer o bem, mas olhar a quem. 
Ditados antigos, que, passando de geração a geração, tentam nos alertar que nada é o que parece, quem vê cara não vê coração e que tudo o que é sólido desmancha no ar (tá bom, essa citação é de Marx, mas cabe perfeitamente ao caso, não pude resistir).
Passo, então, a contar a história de Wanda, para mostrar que nossas Avós tinham razão: um olho no padre, outro na Missa.
Inteligente, meiga, honesta, generosa, Wanda era também uma boa pessoa. Claro que tinha seus defeitos, eu não disse que ela era perfeita. Vejam, por exemplo: não sendo exatamente ingênua, costumava tirar os outros por si, achando que todos eram corretos como ela, esquecendo que cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.
Vivia com o Marcos, e para ela, não havia marido melhor. Era Marcos no céu e Deus na terra (o trocadilho não é meu, é dela). A união já durava dez anos e era mais sólida que as Muralhas da China.
A essa altura, os amigos leitores devem estar se perguntando quando virá o elemento crise dessa história tão perfeita. Agora mesmo, calma, que o apressado come cru. E a crise tem nome.
Solange já passava dos 35 anos, solteira, vivia apertada em seu salário de professora, vestia-se mal (vejamos, que tal misturar roupa de ginástica com salto alto?). E era feia. O olhar mais caridoso não encontraria outro adjetivo. Tinha, ao menos, charme? Não. Solange era tão opaca que poderia ficar horas num lugar sem que sua presença fosse notada.
Por obra e graça do impressionante trabalho das redes sociais, as duas amigas de infância se reencontraram, depois de muitos anos de afastamento. Embalada pelas lembranças felizes, Wanda recebeu a antiga amiga em sua vida, de coração aberto e olhos fechados.  Viraram um grude só, os finais de semana Solange passava inteiros na casa da amiga. Ela era uma coitada, no entender de Wanda, precisava de apoio. Marcos discordava. Dizia que Solange até podia ser coitada, mas era uma chata.
Wanda achava muito natural sair com o marido levando a amiga a tiracolo. Que mal havia nisso? Sua Avó balançaria a cabeça e diria: Fia-te na Virgem e não corras, para veres o tombo que levas (é um ditado português, ora pois).
Pois sim.
Uma noite, Wanda espera, espera, e nada de Marcos chegar. O celular dele só caía na caixa postal. Quando já estava prestes a telefonar para todo mundo, em pânico, o telefone dela toca: é o Marcos.
 - Meu amor, onde você está, o que aconteceu?
Mas não é Marcos quem responde. É Solange, com a voz baixa e lenta de sempre.
- Wanda, minha amiga, o Marcos veio morar comigo. Estamos apaixonados e nem pense em procurar por ele, que agora a conversa é outra.  E deixa eu te dizer, essa casa do Recreio é grande demais só pra você, então vamos ficar aí. Você pode procurar outro canto. Lamento muito, mas quem vai ao ar perde o lugar.
E desligou.
Wanda não conseguiu sequer se mexer, teve medo de morrer ali mesmo, sozinha. Em sua cabeça, nenhum pensamento coerente, apenas esquetes dos momentos que os três passaram juntos e nos quais ela ainda não enxergava nada que pudesse causar suspeitas. O marido e a amiga mal se falavam ou olhavam!, era sempre Wanda quem animava as conversas. A cabeça girava, tonta.
E ouviu muito claramente a voz do marido, como se ele estivesse ali ao seu lado, dizendo o quanto Solange era desagradável, sempre com aquela voz enjoada. Pior! Lembrou da vez em que ele afirmou que era até uma crueldade Wanda, tão bonita, aparecer ao lado de alguém que mais parecia o Godzilla. A comparação foi tão esdrúxula que ela riu e disse que a pobre Solange era boa gente, boa amiga.
Wanda desabou. Não conseguiu nem chorar de tão entorpecida. Quando a exaustão a venceu e ela finalmente dormiu, sonhou. Sonhou com todos os sinais que deixou de perceber – sim, porque os sinais estão sempre lá, acredite, não os vê quem não quer. E também com a Avó lhe dizendo deu chance ao azar, deu chance ao azar...
Wanda, Marcos, Solange. Personagens de uma história que se repete todos os dias em algum lugar do mundo. A desapercebida, o fraco, a víbora. Já aconteceu perto de você?

quinta-feira, 15 de março de 2012

TOLERÂNCIA 4,5 >> Fernanda Pinho


Tem uns dois meses que ele resolveu dar pinta por aí e, desde então, é um exibicionismo só. Já chegou chegando, na dianteira, gris, reluzente e longo, como os outros: meu primeiro fio de cabelo branco. Me simpatizo com ele e nem tenho feito questão de escondê-lo. Enquanto é filho único, devo dizer. No terceiro que aparecer, já estou pronta para aplicar uma mão de Marrom Sedução (queria tanto ter a profissão das pessoas que dão nome às tintas de cabelo e aos esmaltes).

O que noto com certo interesse é que a idade vem me trazendo não apenas o ônus estético, mas também o bônus psicológico. É aliviante perceber o quanto me tornei mais tolerante.

A Fernanda de dez anos atrás tinha um "quê" de dona da verdade e destilava críticas severas ao gosto alheio, como se o seu próprio gosto fosse o único permitido. Se alguém gostava de axé, pagode ou sertanejo, não merecia meu respeito. E alguém estava interessado em ter meu respeito? Claro que não. Mas eu achava que sim. Hoje eu aprendi a me colocar no meu lugar. E mesmo que nesse meu lugar nunca toque axé, pagode ou sertanejo, eu aprendi também a respeitar quem gosta. E mais que aprender a respeitar: eu aprendi a me divertir, a não levar a vida tão a sério. Tem tanto problema no mundo, pra quê gastar energia execrando o Michel Teló (coisa que eu certamente faria se estivesse com 18 anos). Ah, vamos deixar o cara ganhar dinheiro e as pessoas se divertirem com sua delícia. A terceira guerra mundial não vai ser instaurada por isso mesmo.

E nem por culpa dos programas de televisão ruins. Me lembro de certa vez, no auge das minhas ideologias de estudante de jornalismo, ter escrito um manifesto contra o "lixo televisivo", no qual eu lançava mão de argumentos duvidosos e palavras ácidas para criticar um a um dos programas da TV aberta brasileira. Veja bem, se eu podia comentar um a um dos programas é porque eu os conhecia bem. Diferente de hoje, que eu não sei o que passa na televisão e nem estou preocupada em saber. E se tem gente que gosta do que é oferecido pelas emissoras, eu não tenho nada com isso.

Hoje entendo que a tolerância é exatamente respeitar a individualidade do outro. E isso transcende esse assunto de gosto. A partir do momento em que eu aceitei que estou convivendo com 7 bilhões de pessoas diferentes de mim eu passei a pensar uma vez antes de falar (um dia eu chego no nível de pensar duas vezes. Mas já é um avanço para quem falava duas vezes antes de pensar). Estou menos fatalista, menos imediatista e mais compreensiva. Naturalmente, ainda tenho muito a aprimorar. Creio que numa escala de zero a dez, eu subi do zero para o nível 4,5 de tolerância. Um dia eu chego no dez, ainda que isso me custe mais um punhado de cabelo branco. 

quarta-feira, 14 de março de 2012

DÉGRADÉ >> Carla Dias >>

Minha máscara: dégradé.

Não reconhece? Insisto, porque debaixo dela eu moro, e se aspira conhecer a mim, dê algum sinal, senão me escondo, fico submersa, debaixo das plumas e mágoas, neste aconchego equivocado.

Minhas mãos... Saiba que elas já tatearam a intensidade. Plantaram, colheram, arrebanharam: silêncios e desenhos de sombras. Tocaram o vento. E também acenaram às fatalidades.

Veja que não sou esboço do que sonhei ser um dia. Na infância dos meus sonhos eu sucumbiria às descobertas, quando adulta, e não haveria limites para a sapiência e a ciência sobre os sentimentos que desejasse conhecer. Não haveria álibi que me livrasse da culpa, ré que seria por desejar da vida cada farpa, cada afago. E minha mãe me ensinou o amor sem caras e bocas, sem bolsos, sem raça. Minha mãe me ensinou o amor indiferente às distrações que pudessem tirar dele, na essência do seu significado ainda tão enigmático, a honestidade. E ao amor honesto delega-se o incondicional. Sendo incondicional com o outro, espera-se o mesmo. Porém, quase sempre, espera-se em vão.

Sentei-me à margem da vida, olhos cravados no avesso do espelho, abocanhando a antítese dos fatos, vislumbrando a ilusão das conquistas. Esperei. Incondicionalmente. Minha máscara é cortesia da humanidade esfarrapada. Fazer? Observar intolerâncias?

Prefiro cortejar mudanças.

Mas, contenha-se...

Antes de me aceitar, abstraia a tagarelice da sua consciência. Que não seja pelo equívoco de se convencer afetuoso, enquanto sente é piedade. A piedade eu dispenso, porque ela me dispersa. Antes de me aceitar, se possível for, conheça-me às avessas, porque fui jogada ao mundo para contracenar com o inadaptável. Eu e mais tantos. Ainda assim, somos solitários. Somos cada um a vagar pelos próprios cômodos de casas abastecidas com vazio. Somos erros cometidos por um Deus preocupado com coisas mais importantes do que nossa sofreguidão. A sofreguidão de quem não cabe aqui ou ali, de quem foi feito à imagem e semelhança do desconserto, e se arrasta pela vida, à sombra dos rótulos.

Quem está apto a nos julgar? Quem tem a consciência tranquila para fazê-lo sem tropeçar em próprios erros? E se busquei em outras fontes a solução para a alma, não foi por gosto, mas por vazio querendo ser preenchido. Sabe que gente sabe fazer outra gente se desesperar fácil, fácil? Basta um olhar, um esgar. Basta uma palavra amarga em meio a tantas outras benevolentes. Ferir é arte que o ser humano domina. Quando quer, ele destrói sem esperança de reconstruir, e depois faz de conta que não foi com ele. Não assina autoria do desfeito. Convive bem com o crime que não tem nome de crime, porque não mata assim, logo de cara. É mágoa para carregar pela vida.

Confesso que este agora me alucina um tanto que parece pouco, sei, mas alucina. Meus olhos se atrevem a desenquadrar a realidade, e meus pés tocam o chão como se, na verdade, ele não existisse. Falseio o passo, e se caísse? Arrebentasse de desespero? Raramente, quem não cabe se conforma. Vai pegando fórmulas milagrosas aqui e ali. Aceitar o conformismo seria o mesmo que assinar atestado de óbito para a vontade de sentir. Sentir além do que parece possível. Sentir com toda força que o ato exige quando se tem – latejante – a vida dentro da gente. E pensamos lutar pela igualdade, mas durante um tempo não nos damos conta do óbvio: não há como igualar diferenças. Sublimá-las a um mesmo cheiro e a um mesmo gosto seria assassinar a beleza que há na multiplicidade. Seria designar destino certo ao que nasceu para conquistar o seu próprio. E é assim, nesse afobamento, que vou levando o desentendimento com a simetria, com o justificável, o ‘rotulável’, o sonso. Amando e odiando o contrário de mim.

Quantos enganos não foram cometidos à custa do que não era? Inocentes dançando com condenações. Sorriso contracenando com a mágoa. Concordância violentando a vontade de assumir o gosto por outra opinião. E por que engolimos verdades? Por que deixamos para lançá-las já quando não fazem mais sentido? Ah, mas que não tenho respostas. Sou das que nasceram com as questões em pauta e no questionamento tenho levado a vida. Mas que conste em todos os autos que possam remeter à minha biografia: viver tem sido uma experiência fantástica. E se não estivesse estereotipada de fora para dentro, certamente alguns se encantariam por mim de dentro para fora, e depois a simetria de nada valeria. Eu tenho por gosto conhecer as pessoas assim, de dentro para fora. Sei bem quão fascinantes elas podem ser, mesmo que distantes do olhar do modismo que escraviza a perfeição às definições, padrões. Mas a perfeição é rebelde e, para aqueles que se atrevem a olhar adiante, oferece grandes surpresas.

O poeta falava sobre peculiaridades, o olhar vagando nos olhares dos outros. Escreveu versos sobre a ambivalência do que sentia. Considerava-se dois e até quase dois mil dele mesmo, cada um vestindo sua máscara preferida. Às vezes, acordava com desejos de amante ou humanista. Em outras, de crente ou cético. Cada segundo de sua vida, representando não um ponteiro se adiantando no caminho do tempo, mas sim uma fração do que habitava em seu coração. Soubessem prestar atenção sem e escandalizarem com a diferença, os transeuntes da biografia dele reconheceriam no poeta diferentes paisagens que formam o universo aprisionado em seu corpo. Porém, distraídos com os próprios lamentos, não notam a riqueza que no poeta habita. Nãos e permitem envolver pelas nuanças de sua alma.

Fato é que aprisionar tem sido tema dessa existência que me abarca. Porém, diferente do que dizem por aí, percebo que o contentamento não vem em comprimidos. Não está depois dos tremores e da taquicardia. Não convive com a fadiga que corrompe as vontades que me lembro de sentir desde o dia em que aprendi a reconhecê-las. E pior do que ser crupiê neste jogo, é deixar-se enganar, dar-se por vencido, disfarçando a curiosidade alheia com frases feitas sobre como o amanhã reserva um pote de melhorias no final do arco-íris. É que o amanhã pode até oferecer mais, só que esse mais não vem em potes, não está condicionado às fórmulas. O mais, que costumamos fantasias de inalcançável, mora em um vão do equilíbrio.

E aqui estou: na corda bamba, no anverso dos meus sentimentos. Vestida de lamentos e esperança de que, dia desses, amanheça às malhas da despreocupação sobre não frequentar a benquerença de quem se entende somente com o imediatismo do olhar. Porque eu sei que o que importa está sempre além, e leva tempo para se conhecer. Leva ao desgarrar dos rótulos, dos títulos, dos invólucros.

Agora, devo voltar à minha máscara. Dégradé. Repousar as angústias geradas pela espera da real compreensão de que o ser humano não é definido pelo o que lhe falta, mas sim transformado pelo o que experiencia.

Já fui e serei e tantas que não caberei em descrições. E aqui, no avesso, reconheço meus mistérios e me nego a sentenciar sentimentos ao raso. De dentro para fora... Do avesso... Eu... Dégradé.


Imagem: Strange Flower © Billy Frank Alexander (stock.xchng)



terça-feira, 13 de março de 2012

S.C.M >> Clara Braga

Existe um fenômeno, um tanto inexplicado, na minha opinião, que algumas pessoas acreditam e outras já não levam tanta fé nele. Esse fenômeno que insiste em nos perseguir é a tal da coincidência.

Eu entendo coincidência como um fato, que tem o seu leve toque de mistério, que acontece mas que a gente não sabe explicar bem como e nem por quê. A partir dessa definição eu posso dizer que eu até acredito que a coincidência exista, mas como não acredito muito que uma coisa possa acontecer por acaso, assim sem motivo nenhum, simplesmente acontecer, eu acabo não levando muita fé nela. Acho que tudo que acontece com a gente tem um porquê, mesmo que esse porquê não seja aparente.

Por exemplo, se estamos pensando em uma música e ela toca no rádio, como com certeza já aconteceu com a maioria das pessoas, eu acho que tem um porquê, não que seja apenas coincidência. Assim como também acho que tem um porquê do nosso telefone tocar e ser exatamente a pessoa em quem a gente vem pensando nos últimos tempos.

Mas mesmo acreditando nessas definições e colocações sobre a coincidência e os porquês que eu falei, existe um tipo de coincidência que vem acontecendo comigo nos últimos tempos que eu ainda não consegui encontrar onde pode estar o porquê. Só sei que é um tipo muito chato que acabou por desenvolver em mim algo que eu gosto de chamar de S.C.M, mais conhecida como Síndrome da Culpa pela Morte.

O que é a síndrome? Vou explicar: Quando a Amy Winehouse, cantora que eu adorava, veio fazer show aqui no Brasil, a minha grande dúvida em relação a ir ou não ao show dela era a seguinte: eu podia sair de Brasília, pagar passagem, pagar o ingresso do show, pagar hospedagem em algum lugar, gastar a maior grana para chegar lá e ela estar tão bêbada que não ia conseguir nem fazer o show e eu ia acabar me decepcionando. Ou então eu poderia não ir e correr o grande risco de nunca mais ter a oportunidade de ir a um show dela, já que do jeito que ela estava bebendo e se drogando ela não ia demorar muito para morrer.

Maldita hora em que eu fui falar isso e decidi não ir ao show. Não deu outra, logo depois apareceu ela morta. Nossa, mas que boca a minha, hein! Será que eu deveria me sentir um pouco culpada? Será que mandei energias negativas para ela pensando assim? A resposta eu não sei, mas sei que nesse momento minha síndrome, por mais absurda que possa parecer, começou a se desenvolver.

Mas tudo bem, agora você deve estar pensando algo como: "Ah Clara, nem vem, todo mundo sabia que a Amy ia morrer, não foi uma coincidência tão grande assim você ter falado isso!" Acontece que não parou por ai. Vou dar outro exemplo para você ver como a minha paranoia de achar que eu estou matando os artistas tem fundamento.

Outro dia, contando para um amigo sobre os show que tinha na Austrália na época em que morei lá, falei que fiquei triste porque na semana em que eu voltei para o Brasil, a Whitney Houston ia fazer o primeiro show dela depois de ter ficado parada tanto tempo lá em Sydney, perto de onde eu estava morando, e eu tinha muita vontade de ouvir ela cantar ao vivo, e as chances dela vir para o Brasil eram pequenas, enquanto as chances dela acabar se envolvendo com drogas de novo já não eram tão pequenas assim.

Terminei de falar isso, virei para cumprimentar uma pessoa, e nisso meu amigo abriu o facebook dele pelo celular, foi aí que ele soltou a bomba: "Clara, eu estou com muito medo de você! Acabaram de achar o corpo da Whitney Houston dentro de um quarto de hotel! Ela está morta, Clara! Por favor, faz um favor para mim, nunca diga que você está com saudade de mim ou que está com muita vontade de me ver, porque pelo visto, quando você está com muita vontade de ver alguém essa pessoa morre!"

Bom, não descobri ainda se esse fenômeno da morte acontece só com artistas que eu quero ver ao vivo ou se acontece também com pessoas próximas. Preferi não fazer o teste. Só sei que nunca mais falei que queria ver show de ninguém, só do Foo Fighters, da Joss Stone, do Bob Dylan, do The Coors, da Alicia Keys, do Bruno Mars, do Paramore, da Roberta Sá, da Maria Gadú, do Chico Buarque, do Marcelo Camelo, do Biquini Cavadão, do John Mayer e mais vários outros.

Mas não se preocupem, se algum desses aparecer morto por agora, aí eu começo a falar que quero ver show do Justin Bieber, do Michel Teló, dos Back Street Boys (se é que eles ainda existem), do Calypso, etc.

segunda-feira, 12 de março de 2012

AMOR E NEGÓCIOS >> Albir José Inácio da Silva

Tito daria um ótimo empresário não fosse o coração. Não que tivesse um coração doente, é que bom coração também atrapalha os negócios.

Na infância já lhe doía no couro a generosidade. Parte das balas e doces que vendia acabava por matar a fome sua e dos amigos. As contas não fechavam e no final do dia recebia nas costas a paga de sua bondade sob a forma de varas e cintos na mão da tia.

Mas dos amigos que alimentava também recebia ingratidão, furtos e pontapés. Não se emendava, e no dia seguinte distribuía de novo os doces, sorrisos e abraços, como se a vida dura não tivesse o condão de fazer egoístas. Claro que assim não lhe prosperavam os negócios nem melhorava a vida.

Com o fim da adolescência sonhou negócios maiores. Por essa época herdou Natacha de um gigolô amigo que morreu assassinado. Fez planos para a mulatinha mas seu coração de novo interferiu. Apaixonou-se por ela, que por isso não lhe rendeu um tostão, rendeu despesas, embora não tivesse qualquer ambição — bastava-lhe o amor de Tito.

Com braços fortes e bom coração, Tito não fugia do trabalho, mas faltava-lhe malícia pra lidar com puxa-sacos, delatores e demais espertos no submundo da sobrevivência.

Assim mesmo, por influência de amigos, ingressou no comércio das drogas não autorizadas. O pessoal do movimento gostava porque ele não cheirava nem fumava. Isso até descobrirem que Tito desencorajava alguns clientes por serem pais de família, porque estavam doentes ou porque aquele era o dinheiro da comida. Quase foi pra vala e acabou expulso do morro, proscrito mas vivo.

Tentou ainda o negócio dos milagres. Ali não faria mal a ninguém. Dava conselhos, distribuía toalhinhas, rosas e outras bênçãos, com sorriso e paciência. Seus superiores só não gostaram quando ele devolveu a oferta de uma velhinha, dizendo-lhe que comprasse os remédios, fizesse dieta e orasse em casa mesmo. Dali também conseguiu fugir após dolorosas sessões de exorcismo.

Tito abandonou de vez as atividades empresariais. Faltava-lhe ambição. Não precisava mesmo de dinheiro e Natacha só queria o seu amor. Ficou morando definitivamente na rua. Integrou-se na comunidade das praças e calçadas, ajudava, carregava as tralhas mais pesadas. Não lhe faltava coragem nem braços fortes. Defendeu violentados e recebeu ameaças que não eram para ele, eram ódio contra a sua gente empoeirada.

E na madrugada do dia em que mais uma vez tomou as dores de um companheiro sem braço, não lhe perdoaram a ousadia. Amanheceu queimado, abraçando ainda o que tinha sido a sua Natacha. Natacha para quem bastava o amor.

domingo, 11 de março de 2012

MEU PAI, NOSSO PAI
>> Eduardo Loureiro Jr.

Uma das principais qualidades de meu pai é sua tranquilidade em emergências. Embora seja um sujeito teatral, daqueles que faz drama por coisas banais, quando uma situação difícil emerge, meu pai exerce como poucos sua capacidade de empatia e resolução. Pode ser um simples pneu furado, ou então uma batida de carro, uma doença venérea ou a perda da chave de casa. Na minha infância e na minha adolescência, presenciei, por algumas vezes, meu pai tomar conhecimento da situação, fazer uma ou duas  perguntas para se inteirar melhor do assunto e já partir para uma ação tão direta que o problema, ou pelo menos o desamparo diante do problema, desaparecia em minutos. E uma coisa que me impressionava muito era sua economia de palavras. Durante a resolução dos problemas, reinava um silêncio tranquilo, ausente de qualquer culpabilização. Ficávamos os dois fazendo o que deveria ser feito, sob a orientação dele.

Lembrando isso agora, me ocorreu como aproveitei pouco essa grande qualidade de meu pai. Eu ficava tão ressentido, magoado, amargurado pelas vezes em que ele fazia tempestade em copo d'água que acabei desenvolvendo uma independência e uma autossuficiência precoces e exageradas. Só apelava para o meu pai quando a situação realmente me parecia quase impossível de se resolver. Uma pena. Porque se eu tivesse recorrido a meu pai em situações não tão críticas, teríamos tido mais momentos juntos e haveria mais histórias nossas. Meu pai viveu e conta muitas histórias curiosas, com amigos e parentes. Eu não sou personagem frequente de suas histórias, e isso porque me retraí demais, me tirei de cena muitas vezes.

Dizem os entendidos nas psicologias e nas espiritualidades que nossa relação com nosso pai é bastante semelhante à nossa relação com Deus. No meu caso, parece verdade. Tenho uma relação dúbia com o Pai Nosso que está no Céu. De um lado, temo os rompantes do Deus do Antigo Testamento. De outro, como pessoa criativa que sou, admiro muito o Criador capaz de realizar essas maravilhas a que a gente até se acostuma de tanto ver todo dia: o Sol, o céu, a Lua, as estrelas, os tantos verdes das plantas, as cores e os formatos das flores... Também poucas vezes recorri a Deus, talvez duas ou três vezes em toda a minha vida, e sempre em momentos desesperados, em que parecia não haver alternativa. À semelhança de meu pai, silenciosamente, nosso Pai também me atendeu de maneira exemplar. Já me tirou de um buraco que só de lembrar me dá arrepio.

Bem recentemente, coisa de um ou dois meses, decidi deixar de lado a birra orgulhosa e utilizar mais esse recurso. Como moro a alguns milhares de quilômetros de meu pai, ainda não exercito adequadamente esse meu propósito com ele. Mas como nosso Pai é onipresente e garantiu que a lei é "pedi e recebereis", estou testando, digamos assim, pra ver se a lei é de lei mesmo. Na hora em que a coisa fica braba, como hoje pela manhã, dou uma inspirada profunda, fecho os olhos brevemente e chamo por Ele: "Vem cá, Pai, por favor, estou precisando de você". Como Ele não precisa fazer nenhuma pergunta para se inteirar do assunto, é onisciente, chega silencioso e só percebo sua presença por um leve frio, uma brisa fresca. Daí em diante, fico confiante de que, eu fazendo a minha parte, Ele fará a dele. Às vezes me afobo um pouco — não sou tão calmo ainda em situações críticas—, mas continua sendo uma questão de minutos para eu sair do desespero e entrar na esperança.

Esta crônica é um reconhecimento e um agradecimento ao meu pai e ao nosso Pai. E também uma declaração de compromisso de que, um dia, eu ainda chego nesse lugar de, quando alguém pedir o meu auxílio, poder transformar o paralisante desespero em esperança ativa.

sábado, 10 de março de 2012

MATERIAL GIRL, NOT [Carla Cintia Conteiro]


É ingenuidade esperar uma resposta positiva vinda de mim quando a pergunta é algo como:
- Sabe o Fulano do Citroën C3?
Não, não sei, porque sou desligada e não reparo no carro que as pessoas dirigem. Também perde tempo quem investe tentando impressionar com o relógio, os eletrônicos, o celular, os sapatos e as roupas das marcas e dos modelos certos. Nenhum deles será adequado para mim. Eu simplesmente não vejo esse tipo de coisa.
Normalmente, o que observo nas pessoas em relação ao que usam pendurado ao corpo é se as peças estão limpas. A desarmonia sempre grita, evidentemente, como certas coisas que não se encaixam, causam estranheza ou destacam o que desfavorece o observado. Mas, de modo geral, não me interessa se alguém gastou o que tinha e o que não tinha para deixar o cabelo de determinada cor ou aparência. Cada um sabe como manter as pazes com o espelho. A única coisa que perceberei é se os fios aparentam terem sido lavados num passado próximo e se cheiram bem quando abraço a pessoa.
Muito mais que o manejo dos talheres ou o valor da conta que podem pagar num restaurante, observo como as pessoas tratam os garçons. Quem dá bom dia aos porteiros, seguranças, profissionais da limpeza, empregados domésticos? Essas são as pessoas que me interessam.
Gosto de dinheiro, sim. Preciso dele para meus luxos: estar com familiares e amigos e viver em pleno gozo da minha saúde física e mental. Para este último item, contabilizo como fundamental saciar as necessidades fisiológicas, ter segurança, amor e afeto, mas pulo do reconhecimento e prestígio, sem escalas, para a autorrealização (Hierarquia das Necessidades Normais, de A. H. Maslow). Sim, eu adoro me emperiquitar. “Quem não se ajeita a si se enjeita”, não é mesmo? Contudo não sou uma fashion victim. Sim, eu pratico atividade física e procuro comer direito, mas não sou neurótica com pesos e medidas.
E não vou, nem nunca fui, atrás de ostentação. Como já disse uma vez, sinais de status atraem o tipo de pessoa que não quero pra mim. A gente pesca de acordo com a isca que joga.
Entretanto, comemorar suas conquistas é fundamental. Coisa mais linda é gente que transborda sua felicidade ao realizar, com suor e batalha, um sonho tão acalentado. Já dizia Caetano, “gente é pra brilhar”. Então, se incomoda o vizinho ao lado, melhor que este mude de assento.
Mas por maior que seja a satisfação que eu tire de algo que eu consiga comprar, minha vaidade nunca foi por esse caminho. Minto, uma vez quase peguei esse atalho para a desgraça. Felizmente acordei a tempo. Pessoas que cruzam nosso caminho como contraexemplo também são bênçãos, se é que você me entende.
O fato é que o meu ponto fraco, aquele facilmente detectável e manipulável pelos bajuladores era outro, mais voltado para inteligência e erudição. Até isso está mudando. Hoje me regozijo muito mais quando me dou conta que estou desenvolvendo a sensibilidade e a cultura (“aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade”, segundo Edward B. Tylor).
Então se você não lembra o nome de alguém e quer que eu o ajude a descobrir, em vez de descrever o modelo do seu carro, seu cargo, seu “90, 60, 90”, a roupa que usava em determinada ocasião, experimente perguntar:
- Lembra daquela moça com o sorriso largo e uns olhos brilhantes?
Sim, definitivamente eu me lembro dessa pessoa!